Aparição da Virgem ao Homem

Aparece no céu inesperada mulher

Talvez a musa

Em outra idade em outra posição em outra dimensão.

Amemos.

(Murilo Mendes, “A Noite de Setembro”, Os Quatro Elementos)



Eu vi! Eu vi a Virgem!

Alvibela,

seu manto luminante

- mais belo que todos os brancos profanos -

esplendia na crosta da rocha.



Eu vi! Eu vi a Virgem!

Presença ecumênica,

aparece em Kazan, em Quito, em Lourdes, em Fátima

e nos quatro cantos do mundo,

aparecia a Adão e Eva,

aparecerá na solidão do último homem.



Eu vi! Eu vi a Virgem!

Musa celeste,

efetiva pulsão afetiva

a convergir solitários em namorados,

a multiplicar e partilhar os peixes,

a – desde sempre – rabiscar na mente

dos poetas.



Eu vi! Eu vi a Virgem!

Curva contínua,

ombro cúmplice onde meu fôlego

deita o rosto.

Multiforme trânsito do visível

e do in(visível),

inclino-me vencido e em fascínio por sua insolúvel

obscuridade.



Eu vi! Eu vi a Virgem,

e sua (des) aparição

na treva

me salvou e me salvará

durante toda a eternidade.

Publicado em: às maio 18, 2012 em 4:20 pm  Deixe um comentário  
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Sofista

Eis o homem! Carente

de brânquia,

de couraça, de garra

ou de asa –

órgãos medíocres o põem

submisso

à natural natureza,

severa.


Eis o homem! Provido

da técnica,

do debate travado

na ágora –

habitat-domicílio do animal

político,

legismolde da humana natureza,

plástica.


Eis o homem! Medida

das coisas –

o mundo, lapida a partir

de seu talhe;

razão partilhada desvela

balizas

da natureza divina,

libertas.

Eis o homem! Consigo

e sozinho.

Publicado em: às maio 17, 2012 em 10:53 pm  Deixe um comentário  
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(des)construção

Poesia –

espinha dorsal

Não te quero

fezes

nem flores

Quero-te aberta

para o que der

e vier

(Francisco Alvim, Amostra Grátis)



Dessa construção, me inclino:

ver

através da vidraça.


Recluso,

recuso a cegueira

dos homens lá fora.


Sob um sol que queima retinas,

caminham restritos,

insondáveis.


Passam ao lado e ao largo

do tempo,

do instante e

dos sonhos.

Recluso,

não via o mundo

ou a vida -

espiava.

Minha retina é vidraça

que paira sobre as calçadas,

interditando o atrito com os ritos

- e desvios -

paridos pelas ruas.

• • •

Atrito –

corpos opostos,

impossíveis sem ti

a ferida

e a carícia.

• • •

Construção,

não sê prisão ou sepulcro –

conquista e protege

o instante em que te tornas

dispensável; no qual,

despidos de toda ironia,

podemos – enfim –

receber / oferecer a nossa

n

u

d

e

z.

• • •

Ar que circula

cantos de núpcias –

vento

que fecunda os ventres.

Alento de incêndio,

ruir de pilastras –

desmoronam

tempo e espaço.


Fundem-se astro e estrela

e essa luz que nos cega

e revela,

somos nós mesmos que emitimos /

refletimos.

sonh

o em vig

ília.desvan

ecer de enr

edos.hor

as que esc

orrem

Nuvem névoa neve -

fonte,

montanha.

Publicado em: às abril 30, 2012 em 11:31 pm  Comentários (1)  
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Imperativo

É errado?

É

Mas você sabe como é

Se não for eu

Vai ser outro

Melhor que seja eu

Não é mesmo?

Se você não quiser

Fácil, fácil

Arrumo quem queira

Só fiz

O que qualquer um faria

To errado?

Publicado em: às abril 18, 2012 em 2:00 pm  Deixe um comentário  
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À salvação

Escolha-me -

por favor,

escolha-me!

Todos somos vasos

esperando os seus cuidados:

preencha-nos

com terra fértil,

regue-a e nela

deposite

mudas

para que as

façamos

creSCER

e

enunciar

verdes folhas,

floricores.



Escolha-me –

pelo amor de Deus,

escolha-me!

Não me deixe assim,

v      a      z      i      o;

não me deixe assim,

tão

l

ev

e,

pois se for assim,

me

levem –

tirem-me

daqui.



Escolha-me -

vamos logo,

escolha-me!

Não me deixe sem amparo -

livre-me da

q

ue

d

a;

se eu ceder,

junteos

ped  a  ç  os -

não me deixe

aos cacos.



Escolha-me –

por favor,

escolha-me!

Publicado em: às abril 16, 2012 em 8:23 pm  Deixe um comentário  

sol sobre lago

sol vespertino                onitrepsev los

olha-se em lago          ogal me es-ahlo

cardume de lumes

mUltifLAsHs n’água


Publicado em: às abril 5, 2012 em 8:27 pm  Deixe um comentário  

e/E.l/v.a I

a sanar-se do labor,

pousa o seu corpo -

gradativ

o desr

ubor

.calor e sereno.

misturam

pescoçoecabelos


pilar de crepúsculo

\ri

s

cad

o/

por\

f

ios\

no

t

ur

n

os/


Publicado em: às abril 5, 2012 em 2:59 pm  Deixe um comentário  

Bacante

Bacalizado,

meu cálice alicia-me.

Vertendo-o, eu me invento,

e o hálito que transborda de meus poros

é a prova de que minha alma – agora – está mais cálida.


- Evoé, Baco!


Vem! Deslaça essa mente

que amarra a si mesma,

desensimesma-a

desmensurando-a.



- Evoé, Baco!


Sim! Lidera o festim,

desliza e de/lira

de/lírios líricos -

delirismos.



- Evoé, Baco!


Eis! Deslembra as fronteiras,

desmembra os vigias;

a vida, orgiliza -

organicorgia.



- Evoé, Baco!

Publicado em: às março 29, 2012 em 12:41 am  Deixe um comentário  

A chuva, a queda e o tombo

Queda de energia –

chovia.



Folhas farfalhavam.


gotas

gotas

gotas

caíam

sobre tímpanos.


Pálpebras falhavam.


Sonolento sonomanso sonomanco –

tombo

no sono.


Publicado em: às março 23, 2012 em 1:49 am  Deixe um comentário  

Mulher com filho no colo

A queda no mundo.


Perdida, a placenta;

rompido, o cordão –

corrompido.



(Não foi o pecado,

apenas

o tempo.)



A queda no aprendizado

do Outro –

prementes, espantam

a outridistância

e

a outricarência.

Pré-babélica língua primeira,

ruidosas sentenças

de choro e gemidos.



Babelicamente

persegue o rastro do Encontro,

modulando-se –

singu/lar.

• • •

Por vezes,

argila

gesso ou

cera;

por outras,

granito

prata ou

mármore.



Rígida-

mente

flexível,

corpórea-

mente

modela-se

em leito

em berço e

em peito.

Matrivetor,

o pós-feto

infecta

de afeto.

Arquimaria,

segura a promessa

de dias de luz.


Publicado em: às março 20, 2012 em 11:32 pm  Deixe um comentário  
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